Illustration of a bird flying.

Hacks que já fiz – parte 1


Sempre fui muito curioso, daqueles de desmontar carrinhos que estavam 100% funcionais só pra ver como era por dentro. Tudo começou como curiosidade mas com o tempo comecei a modificar as coisas, e é um pouco disso que falarei neste post. Obviamente que é difícil lembrar de tudo, visto que muitas das modificações foram há mais de 15 anos.

Por mais que as pessoas relacionam o termo “hack” ao mundo da informática, anos atrás li uma definição muito mais coerente, uma pena não ter localizado a fonte. Ela era mais ou menos assim: “Hackear é o ato de alterar o funcionamento de alguma coisa tornando-a diferente de sua proposta original”. Com isso em mente, pensei em escrever uma série de posts para falar das modificações (hacks) que já fiz e das lições que aprendi com cada uma delas.

Para cada um dos hacks que lembrei criei um tópico e tentei os colocar em ordem cronológica, dos mais antigos para os mais novos.

Barquinhos de isopor

Perdi a conta de quantas tentativas de barquinhos com motorzinhos de carrinhos eu fiz que não vingaram. No entanto um deles funcionou. Infelizmente a viagem foi só de ida.

Sempre que um carrinho meu estragava eu usava o motorzinho para outras finalidades. Algumas vezes para carregar pilhas e outras na tentativa de criar um barquinho de isopor que realmente navegasse. Por ser muito jovem e não entender a mecânica da hélice, as tentativas foram frustradas na maioria das vezes, exceto na última. Como sou muito observador comecei a prestar atenção em tudo o que envolvia barcos com motor. Como tive internet em casa muitos anos após estas experiências, obter informações exigia bastante empenho como entrar em lojas de pesca na expectativa de encontrar um barco ou mesmo um motor ou esperar a semana toda para ir no Domingo em um parque ver os ricos chegarem com seus barcos para então entender o funcionamento. Assim que compreendi como a hélice deveria ser, consegui montar uma com plástico derretido e afixar na ponta do motorzinho e em seguida o motor na peça de isopor esculpida à faca.

Por fim funcionou. Reuni meus amigos e soltei o barquinho na lagoa que havia atrás de casa. A lago era calma e não havia correnteza, mas como o barquinho estava navegando muito bem, o vento o direcionou para o seu fim. Bem ao fim da lagoa existia um pequeno canal, bem estreito que a ligava ao rio Iguaçu, um rio muito grande que corta o estado do Paraná e possui fortes correntezas na região que eu morava na época, União da Vitória, no extremo sul do Paraná e divisa com o norte de Santa Catarina. Pois bem, o barquinho entrou no canal e na sequência no rio, foi ligeiramente levado pelas fortes correntezas e nunca mais o vi.

O aprendizado desta experiência foi algo muito importante: a busca pela informação. Com já disse, não tinha internet em casa e nenhum dos meus amigos tinha, sequer tínhamos computador. Isso tudo era coisa de luxo. A pesquisa foi realizada indo à lugares onde eu poderia ver como um motor funcionava na prática.

Telefone com chave

Cansada com minhas ligações pra rádio pra pedir música e participar de promoções, minha mãe comprou um telefone com chave. A intenção dela era muito boa, diminuir o valor da conta. Obviamente que de imediato eu fiquei muito frustrado mas a regra era clara, pra fazer ligação tinha de convencer minha mãe a entregar a chave.

Pra minha sorte que na época eu trabalhava na casa de uma senhora que montava caixas de pizza. Um dia ela me pediu pra ligar para um cliente e avisar que não conseguiríamos entregar a quantidade solicitada no horário combinado, pedindo para ele vir cerca de uma hora depois do combinado.

O telefone dela era daqueles bem antigos, de disco. Já o que minha mãe havia comprado era um pouco mais moderno, lembro até hoje: um telefone cor de vinho com teclas bem pequenas e na parte de baixo um orifício para a chave com as posições “bloqueado” e “liberado”. No telefone da senhora das caixas de pizza notei uma coisa que me despertou uma curiosidade. Pra cada número do disco que eu girava, a mesma quantidade de de barulho ocorria na volta do disco à posicão normal, como se fosse o botão do “gancho” sendo pressionado por diversas vezes. Ou seja, se puxasse o número 3, no retorno do disco três barulhos ocorriam.

Percepção aguçada

Como sou muito detalhista, lembrei que dias atrás, em casa, havia desligado uma ligação apenas apertando o botão, e não colocando o fone na base, ou no gancho, como chamávamos. No momento que fiz isso, sem querer apertei o botão de forma muito rápida e voltei. Escutei um barulho bem peculiar e a ligação continuou ativa, fazendo com que eu tivesse que pressionar e segurar por mais tempo. Aqueles barulhos pra cada número do disco me lembraram o mesmo barulho que ouvira dias atrás ao pressionar rapidamente o botão de desligar do telefone chaveado de minha casa.

Uau! Foi o que pensei. Imediatamente liguei os pontos e quando cheguei em casa fui tentar replicar o efeito do disco do telefone antigo no telefone que minha mãe havia bloqueado. Precisei de pelo menos umas 10 tentativas até finalmente conseguir realizar minha primeira ligação com o telefone bloqueado. Depois de alguns dias eu já estava craque em pressionar o botão liga/desliga da base e ligar pra qualquer lugar. Sem saber, minha mãe estranhou que mesmo com o telefone bloqueado a conta voltou a subir. Ela só foi saber dessa minha descoberta meses depois quando a conta veio muito alta para os padrões dos meses anteriores. Foi aí que eu contei, ensinei todo mundo em casa e minha mãe deixar de lado o bloqueio, uma vez que era ineficaz.

O que aprendi? Aprendi a encontrar padrões. Por um simples detalhe que ouvira em um momento totalmente despretencioso, consegui ligar os pontos um dia que tive contato com uma “tecnologia” bastante defasada.

Tele-mensagem

Sabe aquela época em que existia uma empresa de tele-mensagem em cada esquina? Pois é, minha adolescência foi nela. Na mesma época que trabalhava fazendo caixas de pizza com aquela senhora, tive uma descoberta incrível: Que eu mesmo podia fazer minhas tele-mensagens, ou algo parecido, pelo menos.

Esta senhora possuía um telefone japonês cheio de funcões e com uma mini fita k7. Seus 3 filhos moravam no Japão e trouxeram o telefone de lá. A única coisa que eu compreendia naquele telefone eram os números, o restante era na tentativa erro mesmo. Isso porque em um dia que houve uma tempestade o mesmo queimou. Ela o levou para o conserto mas não conseguiram, acho que ficaram com medo do que o telefone falava quando algum botão era pressionado. Com isso ela me deu o telefone pra “brincar”, uma vez que pra ela o mesmo era inútil estragado. O aparelho era da Sharp, bem parecido com o da imagem abaixo, diferindo em alguns poucos botões e na cor, era preto.

telefone japonês Sharp

Pois bem, neste telefone havia uma mini fita k7 para a secretária-eletrônica. A sobrinha desta senhora morava na casa e usava este telefone para ligar para os serviços de tele-mensagem, solicitar demonstração de 2 ou 3 mensagens e as gravar na fita. Com isso poderia ligar para seu “crush” e rodar a mensagem. É, ela sabia usar o telefone, e bem, mesmo não falando japonês, e também já pirateava… que feio.

Quando levei o telefone estragado pra casa comecei a o conhecer. Em cerca de umas 2 semanas eu já conseguia fazer diversas coisas. O que queimou na verdade foi somente a entrada da linha telefônica, o restante estava totalmente funcional. Usando o telefone e ouvindo as dezenas de ligações gravadas eu cheguei a imaginar como a pessoa do serviço de tele-mensagem fazia pra colocar as gravações no telefone pra pessoa do outro lado ouvir. Percebi algo comum em pelo menos umas 3 gravações: Antes da mensagem havia um barulho com se fosse um equipamento de audio sendo plugado. Ráá!!! É isso, é um aparelho de som normal que era simplesmente plugado na linha telefônica. Testei e não é que funcionou?!

Como se tornou um hack muito interessante, usei por anos, principalmente na minha época dos namoricos: altas músicas românticas nas conversas com as crush… bons tempos.

Lição aprendida? Dedução. A partir de um simples detalhe que identifiquei em algumas gravações, cheguei a deduzir mesmo sem conhecer, o que a pessoa fazia no outro lado da linha, testei e funcionou.

Tape mixer (gravações com fitas k7)

Quando estava iniciando minha adolescência queria ter um aparelho de som com CDs, fita K7 e toca-discos. Isso mesmo, queria muito ter toca-discos porque meu pai é cantor/produtor musical e tinha 2 discos de vinil. Como morava longe dele, uma das formas de manter proximidade era ouvindo suas músicas. Tive um toca-discos daqueles de maleta mas tinha defeito, ao ligar simplesmente nada acontecia, só me restava girar o disco com a mão e ouvir somente o som produzido pela agulha.

Por muitos anos passei minhas férias de fim de ano em Curitiba, na casa do meu pai, e a cada ano pedia um presente. Num ano pedi uma bicileta, não ganhei, no outro pedi um Super Nintendo, ganhei um Dynavision com pistola…

e por fim pedi um aparelho de som 3 em 1 super potente. Ganhei um Sharp Twin CD, com 1 fita k7 e 2 gavetas de CD. Na viagem de volta de Curitiba para União da Vitória, o deck da fita k7 estragou, assim aconteceu para o CD1. Com isso o equipamento que acabara de ganhar tinha de ser consertado.

Felicidade do dia: encontrei a imagem do som real no Google!!! Sharp Twin CD.

Depois de muito tempo já com o som, um dia pedi uma música na rádio informando ao locutor que era pra gravar. A fita já possuía outras gravações, mas eu já tinha enjoado e decidi gravar por cima. “Dedinho no pause”, era o que o locutor falava antes de começar tocar a música. Isso porque era bem comum as pessoas já deixarem a fita pronta para gravar. O processo era simples, pressionava o pause e em seguida o Rec e Play ao mesmo tempo. Quando a música iniciava na rádio o pause era soltado fazendo a gravação começar.

Depois que a música terminou, voltei a fita pra ouvir se a gravação ficou boa. Ficou horrível. A gravação anterior ainda estava na fita e a nova apenas foi feita por cima. Fiquei intrigado. Tentei uma nova gravação e agora haviam 3 músicas uma por cima da outra, uma zona só. Como já tinha tentado antes, este som possuía um mecanismo que não permitia de forma alguma tocar a fita, gravar, rebobinar ou qualquer coisa que for, com a tampa aberta. Restou o abrir para ver.

Com ele aberto colocquei a fita, acionei o mecanismo da tampa e dei play. Foi sem problema algum. Em seguida tentei gravar. Quando a gravação iniciou percebi que existiam 2 cabeçotes (se é que é o termo correto), um ao centro e outro ao lado direito.

O que realmente me intrigou é que no cabeçote do lado direito não existia nenhuma ligação, nenhum fio. Por algum motivo ele estava levantado durante a gravação. O abaixei e segui com a gravação por mais alguns segundos. Quando voltei a fita e ouvi, uma surpresa: de repente, no meio de todas 4 músicas gravadas tocando ao mesmo tempo, somente a mais recente ganha destaque e as demais somem. Obviamente que repeti a experiência, mas desta vez abaixei o cabeçote da direita, deixei cerca de 5s e o levantei novamente. Foi então que eu descobri que aquele cabeçote na verdade era o cara que apagava tudo no trecho da fita que passava por ele, simplesmente com o contato.

Foi então que eu me toquei de que eu poderia fazer horrores simplesmente burlando o funcionamento deste “apagador”. Quando queria fazer alguma mixagem louca, colocava um durex no mesmo, isso impedia o contato com a fita e como consequência ao invés de apagar a gravação anterior, eu tinha um mixer. Eu fiz muita experiência com isso, desde pegar trechos de músicas e criar minhas próprias mixagens até conseguir tocar uma música inteira sozinho, apenas gravando e sobrepondo sessões com violão e teclado. Me diverti muito, criei muita coisa engraçada que com toda certeza hoje me trariam um misto de orgulho e vergonha.

Aprendi algo com isso? Sim! Seja curioso(a)!!! Não fosse minha curiosidade em abrir o som e ver o que estava acontecendo, simplesmente levaria o mesmo para o conserto e nunca descobriria meu “talento” para a produção musical. Obvio que com o tempo deixei isso de lado devido à compromissos como conciliar estudo e trabalho ainda muito jovem, mas mesmo assim foi uma experiência única e inigualável.

Microfone

Tempos depois do aparelho de som Sharp Twin CD, minha vizinha me deu de presente um som com toca discos, pois sabia que eu queria muito e ela não o usava mais. O som era incrível: Toca discos, fita k7, AM/FM e, babem… entrada para microfone. Olha o estrago aí.

Imediatamente eu queria testar um microfone, fui a uma lojinha de R$1,99 e comprei. Funcionava legal, no entanto a qualidade era uma coisa impressionante, e falo para o lado negativo. O microfone era horrível, pois também, o que esperar de um microfone de R$1,99. Sorte minha: a senhora das caixas de pizza se atualizara, tinha acabado de comprar um novo telefone com teclas super moderno. Ela me deu o telefone de disco e como eu não ia o utilizar decidi desmontar. Da parte do gancho, tirei o microfone. Me surpreendi em ver que não era nada mais, nada menos, que um “simples” alto-falante. O liguei diretamente no plugue do microfone e pluguei no som. Uau! Que qualidade incrível. Agora restava apenas montar um “corpo” para ele.

Agora revelo uma coisa que não me deixa envergonhado de jeito nenhum: Fui acumulador, mas só de eletrônicos. Em toda loja eletrônica e assistência técnica que passava e em sua frente existiam carcaças de rádios, TVs e outros, eu levava pra casa. Minha mãe detestava mas eu tinha muita coisa pra estudar e explodir. Um dia achei uma TV bem antiga, daquelas de caixa de madeira, no entanto vândalos tinham quebrado o tubo de imagem. Aí restou o alto-falante e uma coisa que muito me chamou atenção em sua placa: um capacitor eletrolítico gigante. Mas assim, quando falo gigante, é gigante mesmo, tipo esses caras:

Era o “corpo” perfeito para meu microfone! Arranquei a placa da TV e levei pra casa. Removi o capacitor, o abri, tirei toda sua malha interna e montei meu microfone em sua carcaça.

Se aprendi alguma coisa? Acho que não muito, exceto a dar outras utilidades à coisas que outros definem como lixo.

Alternador caseiro

Como mencionei, nem todos os motorzinhos de carrinhos eu usava pra barquinhos. Uns deles eu usei na tentativa de carregar pilhas. Como? Simples, fazendo girar ao contrário. Meus tios sempre consertavam sozinhos seus carros. Os observando vi que o que gerava a energia para carregar a bateria parecia-se muito com um motorzinho, o alternador.

Seguindo o mesmo conceito fiz um esquema com 2 motores e um elástico de dinheiro. O motor maior era de 9V, ligado à um transformador de energia. O menor era um motorzinho de carrinho de pilhas. Quando o motor maior girava no sentido normal, fazia o pequeno girar ao contrário e, mesmo que quase que ineficazmente, consegui colocar o conceito a prova e dar um pequeno fôlego à umas pilhas velhas que tinha em casa. Obviamente que o processo todo era muito demorado e a carga não durava mais que alguns minutos.

O que aprendi? Criar engenhocas. O resultado foi esteticamente horrível. Na época ainda não sabia da existência de ferro de solda e todas as emendas foram feitas com durex.

Tempos depois comecei fazer um curso de eletrônica por correspondência, isso mesmo, aquele do Instituto Universal Brasileiro… quem quer consegue! Era o que estava disponível na época, o que eu conseguia pagar. Não cheguei a finalizar o curso, mas aprendi muita coisa que permitiram muitos outros hacks, principalmente os que apresento a partir do próximo post.

Tenho mais a lhe contar

Na semana que vem coloco no ar a segunda parte deste post. Pra saber em primeira mão, ative as notificações  no sininho abaixo.