Illustration of a bird flying.

Hacks que já fiz – parte 2


Como escrevi no post anterior, estes hacks são um pouco mais voltados para o lado de eletrônica e alguns já puxando para o lado da informática. Em minha adolescência fiz um curso de eletrônica do Instituto Universal Brasileiro. Pra quem não lembra:

Não cheguei a finalizar, nem a conseguir montar o kit de rádio, mas aprendi muito. Hoje confesso que muito se perdeu em meu cérebro, pois eu tinha entre 14 e 15 anos, faz bastante tempo.

Caixas de som iluminadas

Com o pouco aprendizado de eletrônica que tive, comecei a brincar com capacitores, resistores e outros componentes eletrônicos. Descobri usando um multímetro, que a saída de som de equipamento gerava um certo pico de energia. Logo aproveitei isso pra fazer uma caixa de som como havia admirado em uma vitrine. Era um potente som que possuía leds e era a coisa mais linda de se ver. Um dia passei na loja e vi o som de perto. Na saída existiam 2 pares de fios, um para o audio e outro para os leds. Obviamente que existia uma programação para os leds pois eram “movimentos” uniformes, ou seja, independiam do som. Se o som fosse uma música lenta os leds piscavam como se fosse uma música agitada.

A decepção foi total, sempre acreditei que a iluminação daquelas caixas demonstravam a intensidade da música. Fui pra casa e bolei uma solução que acreditei ser mais elegante. Criei um circuito que amplificava a energia gerada pela saída de audio e alimentava algumas luzinhas de pisca-pisca de natal. O resultado foi incrível: a iluminação se intensificava conforme a variação do audio. Uma pena não ter registrado nenhuma foto disso na época. Hoje obviamente que sequer lembro do que era composto aquele circuito, na verdade nem existia placa, era tudo com componentes e fios soltos.

Aprendi algo com isso? Obviamente que sim. Além de aprimorar os conceitos de eletrônica, aprendi que muitas vezes aquilo que você tando admira não passa de algo feito de qualquer jeito para parecer grandioso. Com base nisso, decidi criar a solução que acreditei ser a correta para o “problema”.

Pedal de distorção

Já falei no post anterior que eu era acumulador de eletrônicos e um dia ganhei de um amigo uma caixa cheia de “lixos”. Nesta caixa existiam alguns itens bem interessantes. Um video-game atari, funcionando, mas faltava a fonte de alimentação, consertei mas o perdi anos depois. E o que mais me chamou a atenção foi um pedal de distorção, lembro até hoje o texto gravado em seu corpo: “Extra Heavy Metal”. Não lembro a marca e nem mais detalhes do mesmo e o deixei guardado até anos depois adquirir uma guitarra e enfim usá-lo.

Logo no primeiro uso me assustei. A distorção era extrema, ao definir o mínimo nível de distorção o som era aterrorizante. Como curioso que sou, já tinha o aberto em situações anteriores. Com isso decidi dar uma amenizada na distorção, confesso que foi tudo na tentativa e erro, não foi nada pensado. Simplesmente tirei um capacitor e fui trocando por outros até encontrar o som que pretendia. Ao final consegui deixar o máximo de distorção um nível abaixo do que o mínimo original. Com isso a distorção ficou mais harmoniosa e eu conseguia fazer diversos solos que adorava sem morrer de dor de cabeça.

O aprendizado deste episódio foi a tentativa e erro. Nem sempre é o melhor caminho, mas pode funcionar.

Rádio amador

Meus vizinhos me “amavam” nesta época. Consegui um rádio amador Cobra 22 plus, este da imagem.

Lembro apenas que consegui através de um “rolo” com um conhecido. Obviamente que saí em desvantagem, como em muitas outras situações que realizei trocas com terceiros. O radio amador veio sem a fonte. Tentei comprar a fonte específica, se não me engano de 12V e 5Ah, mas era extremamente cara para mim na época, coisa de mais de 50 reais e meu salário era de 60 reais. Mas logo volto a falar de como resolvi esse problema, deixa eu primeiro contar porque os vizinhos me “amavam” nessa época.

Recebi instruções de instalação mas acredito que não as consegui aplicar. A antena era uma chamada plano L. As medidas da antena segui certinho, 2,63m em cada uma das hastes. O problema eu acho que foi no cabo. Nas instruções que recebi, dizia ser 1.825m X um valor ímpar, exemplo 1.825×7 = 12.775m. Assim o fiz.

Creio que a medida não era a correta porque meu rádio causava interferência em absolutamente TUDO. Telefone, rádio, televisão, celular e tudo mais que transmitia ou recebia sinal de alguma coisa. E o alcance da interferência era grande. Certa vez deixei o botão PTT (Push To Talk) colado com fita isolante e saí com um walkman pra ver até onde eu causava problemas. Era um dia bem movimentado em casa, minha mãe falando bastante, gente entrando e saindo, deu pra ouvir todo o movimento até cerca de 3 quadras. Imagino quanta gente devia me amar, he he he.

Ah mas o rádio amador tinha uma “qualidade” também: recebia interferência de tudo. Bastava ligar uma máquina de lavar, liquidificador ou chuveiro que o rádio amador ficava roncando ao mesmo ritmo do que causava a interferência.

O problema com a fonte de alimentação

Como mencionei, este rádio veio sem a fonte e comprar uma adequada era extremamente caro para mim na época, custava quase o meu salário. A solução foi criar minha própria fonte. Eu tinha os seguintes itens a disposição: Transformador de uma TV telefunken daquelas de caixa de madeira que havia estragado, um monte de diodos, capacitores e nenhum multímetro pra poder testar. O que tinha havia estragado anos atrás. Sinceramente até hoje não consigo entender como estou vivo. Eu fazia muita experiência com eletrônica sem saber com o que estava lidando.

O problema é que o transformador possuía diversas  saídas, algumas a mais que da imagem abaixo, existiam cerca de 7 pinos de saída. Descobrir qual delas me daria 12V a 5Ah (ou o mais próximo disso) era um tremendo desafio.

Ps. talvez inclusive tenha sido a fonte não adequada que causou tamanha interferência, não soube avaliar na época e continuo sem saber.

Depois de vários testes, diodos e capacitores queimados, finalmente consegui fazer o rádio amador funcionar com o mínimo de ruído possível. A fonte ficou coisa linda de se ver. Um transformador de quase 1Kg com fios, diodos e capacitores todos presos apenas com solda e fita isolante. Tudo foi lindamente acomodado em uma caixa de costméticos que minha mãe tinha na época que revendia aqueles catálogos Quatro Estações e Hermes. Entrava um cabo para a energia por um lado da caixa, por outro saía outro em 12V (ou próximo a isso). Na frente coloquei uma chave para ligar/desligar e um led vermelho pra indicar se está ligado. Detalhe, a caixa era de papelão. Imagina um princípio de incendio ali…

Aqui o que aprendi é que para casos onde se está com poucos recursos ou não possui as ferramentas adequadas, o método tentativa e erro funciona. Obviamente que não é o ideal, mas sim, funciona!

Tubo de TV

Lembra daquelas TVs de 5″ P&B? Pois é tive uma destas.

Ela funcionava lindamente até que um dia o tubo de imagem queimou. Como uma tremenda coincidência um tio meu tinha uma TV P&B de 12″ em que a placa principal havia queimado. Ele levou a TV para o conserto uma primeira vez e ela funcionou por uns meses, estragou, levou novamente e teve como resposta que não compensava arrumar. A placa principal era o mesmo preço de uma TV usada na eletrônica. Meu tio a deixou em minha casa porque pegara a TV bem ao final do dia e não encontrou mais eletrônicas abertas pra ter uma segunda opinião. Alguns dias depois me falou que eu podia desmontar a TV porque ele tinha comprado outra. Felicidade a minha. Eu tinha uma TV que estava com o tubo queimado e outra que a placa estava queimada. O que eu fiz? Um frankenstein, óbvio.

Tirei a placa da TV de 12″ e joguei no meu espaço de acumulador. Tirei a placa da TV de 5″ e acomodei “lindamente” na carcaça da de 12″. Fiz um monte de furos na lateral pra acomodar os botões. O resultado foi uma TV monstro de 12″ P&B, cheia de furos mal recortados e com imagem visível menor do que a tela disponível, mesmo assim ficou utilizável.

Neste episódio acredito apenas que aprimorei meus conceitos de eletrônica e gambiarras.

Escuta

Teve uma época de minha adolescência que virou uma febre naquelas lojas de R$1,99 aqueles microfones FM. Consistia em um microfone em que você o abria, colocava uma pilha, ligava e o sintonizava em frequência FM em um rádio qualquer.

Apesar de a imagem mostrar ele desmontado, era algo bem simples, girando o globo e o tirando, havia um compartimento para colocar uma pilha AA e o microfone na parte de cima do mesmo.

O que me chamou a atenção em um microfone destes?

Comprei vários, até perdi as contas, mas um deles foi especial. Sua captação era extremamente sensível. Coisa de captar conversas sussurradas a diversos metros. A mente já viajou, vou fazer uma escuta! Como o microfone era algo que chamava muito a atenção por seu formato óbvio, decidi o desmontar e o apresentar de forma mais discreta. Desmontei um relógio velho e peguei somente aquela caixinha de trás.

Removi todo o mecanismo do relógio e acomodei a placa do microfone. A antena do mesmo, um fio solto, enrolei por todo o corpo da carcaça e cobri com fita isolante. Na parte da frente da carcaça, na saída para os ponteiros, eu coloquei um pluge para conectar o microfone hiper sensível. O microfone foi feito inicialmente como aqueles de lapela, pois queria apenas brincar com a ideia, mas depois o embuti na própria carcaça. Aí ficou algo bem discreto. Sempre o levava pra aula para zoar com meus colegas.

Maldade à vista

Certa vez um colega que era muito bagunceiro foi levado à direção. Foi ele e o professor. Um outro colega sempre andava com uma caixinha de som amplificada pra usar no intervalo. Como ambos sabiam da minha malandragem com o microfone, o que foi à direção passou por mim e bem rápido disse: me dá a escuta!

Assim que ele e o professor foram para a diretoria, o outro colega me passou a caixa e eu sintonizei o microfone no meu walkman para a turma toda ouvir a conversa. Foi hilário, e triste. O professor chegou a chorar na direção enquanto toda a turma ouvia. Quando eles retornaram à sala a turma não sabia como reagir.

Esta foi a única vez que usei meus conhecimentos para algo ruim. Depois do episódio do professor, desmontei a escuta. Com o passar do tempo, de tanto soldar e des-soldar, o microfone estragou. O usei para captar diversos sons curiosos como deixar perto de minha pastor alemão enquanto ela dormia: descobri que ela tinha pesadelos, deixei a noite toda gravando e ouvia a madeira da casa se retraindo conforme a temperatura baixava. Como eu disse, o microfone era extremamente sensível, dava pra “ouvir a grama crescer”. Foi uma experiência muito enriquecedora.

Mais um post

Na semana que vem falarei dos últimos hacks que lembro. Aguardo você lá.