Illustration of a bird flying.

Hacks que já fiz – parte 3


Se você chegou aqui sem entender, sugiro a leitura da parte 1 e parte 2 deste post.

Tema de celular

Quando já tinha 20 anos e a época dos hacks eletrônicos tinha ficado pra trás devido ao trabalho. Comecei a fuçar em tudo relacionado a informática. Formatava computadores, perdia milhares de arquivos, criava video-mensagens com o Windows Movie Maker. Já fiz cartões de visita… e, nossa, de tudo um pouco. Na época eu trabalhava em um supermercado como cartazista, aqueles que fazem os preços das ofertas.

Como já ganhava melhor que na época em que fazia as caixas de pizza, decidi comprar um smartphone tão sonhado. Na época não existia iPhone e nem Android, o que comprei foi um Sony Ericsson Cybershot K550i com a promessa de a melhor câmera do mercado… sei…

Como já mexia com Linux decidi conectar via USB no celular pra ver o que era possível descobrir dele. Para o Windows existia um software para sincronizar as imagens, áudios e vídeos. Já no Linux abria a pasta home do sistema operacional do celular. Copiei tudo que foi possível para uma pasta no Linux pra poder estudar sem mexer no próprio celular. Após uns dias fuçando em tudo que exisita, encontrei bem escondida uma pasta chamada skins. Nela uns 5 ou 6 arquivos com extensão .gz. Descompactei um e a estrutura era um arquivo chamado theme e um monte de imagens.

Abrindo o arquivo theme, mesmo sem conhecer absolutamente nada de programação na época, notei que tratava-se de um tipo de marcação. Veja um exemplo: “background_image” = “background.png”. Aí foi a deixa pra que eu criasse uma cópia e modificasse do jeito que eu queria. Depois de uns dias eu tinha um tema exclusivamente meu.

Som da TV

Logo assim que eu e minha esposa mudamos para Curitiba, alugamos uma casa compartilhada, por assim dizer. Ficamos 2 meses nos fundos da casa do meu pai e saímos porque queríamos ter nossa liberdade. No entanto a casa que conseguimos pagar foi um casarão que fora dividido em 4 casas pequenas. Ficamos com uma das últimas, bem ao fundo. Na parte de cima da nossa, com assoalho de madeira e uma escada de ferro, morava uma mulher sozinha. A parede divisória era feita de forro de madeira, bem fino, tanto que em uma situação, de um casal briguento que moraram no andar de cima depois daquela mulher, a parece foi quebrada e o cara quase caiu na nossa sala.

Mas voltando a falar da situação que me fez realizar mais uma modificação, não conhecíamos como era a estrutura, na visita não era possível atentar-se à todos os detalhes e a mulher estava fora de casa.

Logo no primeiro dia que nos acomodamos, estávamos assistindo TV e de repenta atrás da gente uma batida na fina parede. Deixei a TV no mudo pra ouvir o que poderia ser. Como a mulher acreditou que tínhamos desligado, subiu as escadas. A gente ouvia com muita perfeição cada passo dela desde o subir da escada até ela se deitar na cama. Com isso tirei a TV do mudo. Logo em seguida ouço passos na escada novamente e mais batidas na parede. Ao deixar no mudo novamente a mulher nos pediu pra baixar o volume porque o quarto dela era logo acima de nossa sala e ela tinha que acordar muito cedo no dia seguinte. De tão fina, mas tão fina que era a parede, conversamos em tom normal com ambos os lados se entendendo perfeitamente. Naquela noite simplesmente desligamos a TV e fomos dormir.

Como resolver?

A TV não possuía saída para fones de ouvido, com isso eu improvisei. Abri a TV, coloquei um conector p3 fêmea e uma chave de 3 estágios. A posição do meio era desligado para ambos os alto falantes. A da direita para o falante original da TV e a da esquerda para a saída p3. Sei que existem conectores que permitem fazer o corte assim que ocorre o plugue, no entanto era o que tinha em mãos naquele momento, não comprei nada, apenas resolvi o problema com o que tinha.

As noites seguintes foram bem melhores para todos, plugava a caixa de som na TV e a colocava no encosto do sofá. Isso permitia que usássemos um volume bem baixo sem deixar de entender nada e não incomodar a vizinha.

Iluminaçao na Pia

Minha esposa trabalha em comércio, com vendas de eletrônicos e celulares em uma multinacional. Sempre fazem algumas loucuras de preços e os funcionários são os primeiros a aproveitar. Já compramos caixas de som dos angry birds que custava mais de 150 reais por apenas 20, e diversas coisas malucas acontecem de tempos em tempos. A mais maluca gerou uma briga. Minha esposa havia reservado um Nintendo DS por R$199,00, não sei ao certo qual modelo, ela apenas me falou que tinha reservado e que era pra eu ir comprar antes que alguém descobrisse que ela tinha escondido e colocasse na área de vendas novamente.

Eu estava no trabalho e só poderia ir depois do expediente. O problema é que ela foi para o intervalo e um colega dela foi arrumar o balcão de celulares e encontrou o DS. Sem perguntar pra ninguém ele consultou o preço, viu que estava praticamente dado, à época, correu no caixa para realizar a compra. Quando minha esposa retornou do intervalo a briga foi feia, mas infelizmente a compra já havia sido realizada e o colega dela não queria devolver.

Opa, não vamos perder o foco

Mas enfim, falando novamente sobre a modificação que fiz. Meses atrás minha esposa chegou com aquelas lâmpadas de emergência em casa, disse que pagou R$3,99. Fiquei feliz porque o valor foi muito em conta e ajudaria bastante visto que desde que nos mudamos para outro bairro, há cerca de 10 meses, já tivemos pelo menos 3 quedas de energia. Além de algo útil, o valor foi bem simbólico. Nas instruções dizia para deixar carregando por 48h, assim o fiz. Dadas as 48h tirei da tomada para a ver em funcionamento e nada. Simplesmente não pegou carga. A primeira coisa foi abrir pra ver se a bateria não estava desconectada. Estava conectada corretamente. O problema era que a bateria estava zoada. Não existia troca porque era produto de retorno de assistência técnica, por isso o valor tão baixo.

Com isso a saída foi usar a luminária de emergência para iluminar a pia da cozinha. Adicionei um “jumper” pra manter o botão de teste sempre em contato. Assim, toda vez que a chave fosse ligada a luz se acendia, bastando a luminária estar na tomada. Aí só fixei em baixo do armário e toda vez que precisava lavar louça a acendia.

Não deixei muito tempo porque acabou não sendo muito produtivo ficar ligando e desligando sempre que precisava. Sem contar também que ficava um fio exposto entre a tomada e o balcão.

O que fica de lição?

Como mencionei lá no primeiro post, em cada uma destas modificações tive experiências que contribuiram para minha evolução. Reforçando o porquê de ter entitulado essa sequência de posts como “hacks que fiz”, foi um dia que li uma pessoa postando uma definição muito apropriada sobre o termo hackear. A pessoa dizia bem assim: “Hackear é o ato de alterar o funcionamento de alguma coisa tornando-a diferente de sua proposta original”. Todas as modificações que apresentei ao longo desta sequência foram mudanças de comportamento de algo, desde os barquinhos de isopor, passando pelo telefone com chave e o pedal de distorção até a mudança de comportamento da luminária de emergência. E em cada uma destas modificações exercitei a curiosidade, descrobri coisas novas e aprimorei algo que já sabia.

Ao final deixo uma mensagem que acredito que resuma a vida de qualquer pessoa que trabalhe com o lado criativo, como desenvolvedores, eletrônicos, mecânicos, etc: Hackear é preciso!