Illustration of a bird flying.

Mudança 2017 – #2


Mudança, mudança e mudança. No total foram 3 somente neste ano, duas de trabalho e uma de moradia. Isso cansa. A de moradia eu quis dizer, as de trabalho por mais que turbulentas trouxeram bons frutos. Neste segundo e último post da série de mudanças de 2017 falarei porque saí da LojasKD, o que me desmotivou e como as coisas ficaram após mais esta mudança.

Um pouco da história

No post anterior eu mencionei que desliguei-me da Four Itil Tecnologia e aceitei o convite de um desenvolvedor pelo qual eu tenho muito respeito e admiração. Não citarei o nome porque não é a pessoa que está em questão mas sim todo o contexto ao qual estive inserido.

12 de Junho de 2017, início minha jornada nas LojasKD com uma missão bem clara: Criar a cultura de testes unitários e TDD no time de desenvolvimento. Parece uma tarefa simples não é mesmo? Afinal de contas estamos em 2017 e todo bom desenvolvedor sabe que é uma excelente prática ter segurança ao desenvolver, certo? Sim! Mas as coisas não são tão simples.

Fiquei maravilhado com uma palestra deste desenvolvedor que me chamou para a sua equipe em saber que na LojasKD rolava para todo canto o conceito de micro serviços. Até pensei em implementar algo assim na Four Itil, conversei com meu time e a maioria estava de acordo. O problema é que na realidade as coisas são muito mais complexas. Um micro serviço nas LojasKD é na verdade um macro serviço devido à complexidade do negócio todo, afinal de contas eram “apenas” 14 anos de código ainda em funcionamento e que simplesmente não tinha como parar. A intenção do time de desenvolvimento de aplicar o conceito de micro serviços foi muito boa, mas no final de contas o que acabou saindo mesmo foi um mundo de APIs pra tudo, algumas em PHP, outras em Ruby, python, C#, Java, Go… mas novamente frisando, devido ao conceito ser novo para todos lá e a vasta dimensão do e-commerce em questão.

 

As coisas iam bem

Logo que entrei a empresa decidiu me utilizar como piloto em um programa que estava há tempos aguardando um voluntário, job rotation. Passei por todos os departamentos que englobam o e-commerce, ficando de fora apenas de financeiro e RH. Foi muito produtivo conhecer toda a mecânica de um e-commerce grande com departamentos de atendimento ao cliente (pré-vendas, pós-vendas, retenção, ouvidoria, etc), logística, marketing, comercial e tecnologia. O setor com o qual mais me identifiquei foi com o atendimento onde pude de imediato já apresentar algumas ideias que levariam alguns meses de desenvolvimento e trariam claros benefícios para a empresa. Pois bem, fui alocado ao mesmo. Comecei por resolver as pendências de um setor que há tempos não possuía desenvolvedor alocado, então a fila era grande. Na verdade nem cheguei a ter tempo de criar nada lá, somente algumas correções, incluindo umas que retornaram por eu não conhecer todo o ecossistema da empresa em tão pouco tempo.

Quando eu tava começando a engrenar nas demandas do atendimento, fui alocado ao setor de marketing para fazer parte do time do site. A equipe de desenvolvedores era a maior de toda a empresa, comigo eram 4, os demais setores todos contavam com no máximo 2 desenvolvedores cada. Aí as coisas começaram a mudar.

Como tudo começou a terminar

Em algum lugar deste blog já mencionei que a gestação de minha esposa foi de alto risco e meu filho nasceu com algumas necessidades médicas especiais. Pois bem, vindo da Four Itil, onde eu tinha tremenda liberdade de trabalhar de casa, finais de semana e à noite, o primeiro impacto que senti foi estar em um local somente em horário comercial. A empresa funcionava das 07h às 19h no entanto meu horário tinha de ser no máximo das 08h às 18h por causa da escolinha do meu filho, que na época conicidentemente ficava no meio do trajeto casa-trabalho, trabalho-casa. Com isso ficava inviável minha esposa sair do trabalho totalmente na contramão para o pegar na escolinha.

Por requerer cuidados médicos especiais, eu, como pai sempre presente que fui e ainda sou, o levava em consultas, exames, procedimentos, etc. Muitos deles de alta concorrência por se tratar de médicos referência no assunto, um exemplo foi um neurologista que fomos pessoalmente em seu consultório em Julho para marcar uma consulta mas sua agenda estava lotada até o fim de Março de 2018. Sem contar também que entregas de exames e diagnósticos importantes os próprios médicos exigiam presença do pai também.

Pois bem, como a empresa funcionava praticamente só em horário comercial, eu me ausentava muito, ora por questão de consulta, ora por uma emergência na escolinha e 2 semanas também por horário reduzido da colônia de férias da escolinha do pequeno. Concidentemente nos meses de Junho, Julho e Agosto, muitos resultados de exames de meses atrás ficaram prontos, o que ocasionava em além de uma consulta para o esclarecimento do resultado, em novos exames a serem realizados.

Quando eu trabalhava na Four Itil a liberdade para tudo isso era fantástica, eu saía durante o dia e trabalhava à noite de casa. No final das contas tudo se compensava. Mas na LojasKD não existia essa possibilidade, um dia até trabalhei de casa enquanto aguardava a alta do meu filho no hospital, mas ao chegar na empresa no dia seguinte fui informado de que o meu esfoço havia sido em vão porque eu não havia tido autorização para aquilo. Bem, os commits foram e as horas também… mas isso é de menos, foram só 8h48min de desconto, pouco para quem já tinha mais de 30h negativas em nem 2 meses de trabalho.

Ok, mas… e como as coisas desandaram?

Entrei no setor de marketing, que era responsável pelo site, em um momento de grande turbulência. Estavam criando a nova versão mobile e tudo mundo estava trabalhando incansavelmente, menos eu. Eu saía algumas vezes da semana durante o dia para resolver questões do meu pequeno, entrava mais tarde e saía mais cedo por conta do horário reduzido da escolinha na colônia de férias.

Não bastando isso em uma Sexta-feira pós feriado, trabalhei somente no período da manhã para ficar à tarde em casa com meu filho. Naquele mesmo dia meu filho passou mal, o levei em 2 hospitais até que no segundo ele ficou internado, isso era 18h. Ou seja, eu já estava de pé desde as 6h da manhã, pois fui trabalhar às 7h, saí as 13h. As 14h saí de casa com meu filho e ele foi internado somente às 18h. Quando era 0h20min do Sábado eu finalmente saí do hospital pra ir pra casa, lembrando, desde as 6h de Sexta acordado. Fui assaltado à mão armada, vieram em 2 e levaram tudo, menos o carro. Fiquei até 4h40min do sábado fazendo B.O, cancelando cartões, número do telefone, IMEI do celular que acabara de comprar… cansei.

Enfim, depois do assalto ficou um rombo: documentos, cartões, telefone… tudo isso teria de ser resolvido algum dia. Algumas coisas consegui resolver por telefone, no entanto outras somente pessoalmente mesmo. Aí se foi mais 1 dia de trabalho e eu devendo mais e mais horas.

A decisão

Frente a tudo que estava acontecendo eu decidi que o melhor que eu faria seria sair da empresa. Eu não estava me sentindo bem por 2 motivos: 1) Eu estava devendo muitas horas, sabia que nunca conseguiria pagar e a empresa não abriria oportunidade de eu repor em casa, afinal de contas naquele exato momento estavam fazendo um piloto com um programador que recém virou pai e não aprovaram essa forma de trabalho; 2) O time que trabalhava no site trabalhava muito, muito mesmo, eu estava lá e vi o empenho que aquelas pessoas tinham, mas eu não conseguia corresponder.

O que foi a gota d’água foi a encarregada do setor me questionar onde que estava a mãe pra levar meu filho no médico, perguntando que tipo de mãe ela era. Aqui a respondo: é uma mãe fantástica, que faz o possível e impossível pelo nosso filho, que trabalha de Domingo à Domingo em horário que poucas pessoas se sujeitariam a trabalhar (chega em casa todos os dias após a 1:30 da manhã). No entanto nosso filho tem um pai também! A experiência dela com a maternidade com toda certeza foi diferente da minha esposa e me orgulho de ter tomado a decisão que tomei. No primeiro post falei que aprendi uma lição valiosa na Four Itil: família em primeiro lugar. Então pedi a conta!

Faltando 1 dia pra completar meu 2º mês na empresa eu saí, de cabeça erguida, com a certeza de que o puco tempo que permaneci fiz o meu melhor. Tudo estava se tornando insustentável e o mais engraçado é que meu encarregado e meu gerente (homens) tinham mais tato na hora de falar comigo sobre o meu filho do que esta mulher que se dizia ser mãe, pelo menos isso que eu entendi com o que ela quis dizer: “… é eu sei como é questão de saúde, tenho minha menina”.

 

Os dias que vieram

Primeiro eu demorei pra cair na real, afinal de contas sou pai, tenho obrigações financeiras e desde que o país entrou em crise e minha esposa passou a ganhar menos que eu, eu que fui o alicerce da família. Mas eu estava (por opção minha) na rua (na rrrrrua pra quem assistiu Vida de Inseto).

No começo é claro que me desesperei porque nunca tive economias o suficiente para conseguir ficar tempo sem um emprego. No mesmo dia que pedi a demissão, sem nada em vista ainda, comecei a procurar outro trabalho. Encontrei várias oportunidades condizentes, em outras os próprios recrutadores me localizaram e em 1 semana eu tinha diversas propostas pra analisar, no entanto todas elas com uma característica que me fizeram sair da LojasKD: somente em horário comercial.

Por já ter saído de uma empresa justamente por este motivo eu recusei as propostas que tinha. Eram ótimas, bons salários, pacote de benefícios bem atrativos, duas empresas que eu admirava que em outra situação iria mesmo que me pagassem metade do que valho, mas quando se é pai todo o contexto muda. Tudo que você mais almejava deixa de ser tão importante porque o que é o mais importante é aquela vidinha frágil e delicada que depende de você. Neste cenário eu com dor no coração rejeitei uma proposta praticamente imperdível em um lugar que muito almejei trabalhar, pelo simples fato de estar preso em um escritório em horário comercial.

Pois bem, na semana seguinte veio uma proposta tentadora, um salário excelente e com total flexibilidade. Recusei. Caramba que loucura? Não, nem tanto, vou explicar. A empresa me contrataria como PJ com uma remuneração muito superior à que eu tinha na LojasKD como CLT (mais de 70% acima) no entanto 3 coisas me fizeram recusar: 1) a falta de um contrato – a dona da startup dizia que estavam encerrando a empresa no Brasil e abrindo no Uruguai e assim que isso se concretizasse faríamos o contrato; 2) Como o valor que pedi foi alto e ela topou, me pediu pra dividir meu pagamento em 2 parcelas quinzenais e 3) o lugar era longe demais de minha casa – De moto eu conseguia chegar em 50 min, de carro então isso iria pra 1:30 ou mais. Além disso ainda mudariam pra um local mais afastado por questão de economia, visto que ficaria somente o time de desenvolvimento e ela já iria para o Uruguai.

Obviamente que dadas as circunstâncias qualquer pessoa desconfiaria: trabalhar sem contrato, com pagamento divido em 2 vezes no mês… tive de rejeitar.

 

Nova oportunidade

Após cerca de semanas procurando uma oportunidade ideal eu desisti. Decidi focar na minha empresa. Comecei a levantar tudo que já tinha feito e se teria condições de transformar o Andre programador em uma empresa de desenvolvimento web e a resposta foi SIM! Fiquei maravilhado em ver quanta coisa eu já fiz, mesmo trabalhando dentro de outras empresas meu portfolio pessoal já era extenso. Foi então que eu decidi mudar este site/blog. Agora ao invés de somente posts sobre programação eu destaco os serviços que minha empresa faz, coisa até então nunca feita por aqui.

Nova logo, novo visual, uma equipe comercial, parcerias e muito, mas muito trabalho mesmo. Iniciei a estruturação da empresa em Agosto e em Dezembro (lembrando que este é um post retroativo e defini a data da postagem como a data do acontecimento em questão) foi oficialmente lançada como Andrebian Soluções Web.

 

O que ficou de bom desse período

Vários aprendizados técnicos, uma nova linguagem de programação, reforcei meus conceitos de TDD, aprendi muitas boas práticas que um coordenador/gestor deve fazer para com sua equipe e demais envolvidos com o produto e reforcei o que aprendi na Four Itil: família em primeiro lugar.

De nada adianta se ter um bom emprego, trabalhar com pessoas que admira se este emprego não lhe permite estar bem consigo mesmo e com sua família. Jamais acusando pessoas desta empresa, simplesmente é a forma de trabalho da mesma. Algumas pessoas tem condições de trabalhar fechado em um escritório (no caso da LojasKD, um barracão) em horário comercial, outros não. Sou deste segundo tipo.

 

 

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