Illustration of a bird flying.

Um dia uma empresa me surpreendeu


Início da penúltima semana do mês de Fevereiro de 2018, três oportunidades de trabalho me cercam em apenas dois dias. A primeira eu deixei passar pois nem valia o esforço em mostrar meu potencial. A segunda foi mais interessante, um propósito no qual me identifiquei e a terceira foi a que me surpreendeu. É sobre esta que falarei agora.

Um gerente de projetos de uma empresa entrou em contato comigo oferencendo a posição de líder de desenvolvimento. Atualmente estou trabalhando sem medir esforços para a minha empresa dê certo. Mesmo assim decidi conversar com ele, visto que existiu a abertura para contratação como PJ.

Chegando lá, fui colocado diretamente com o CEO da empresa, o CTO e o gerente que falara comigo via Linkedin. Tudo foi como de costume, muitas perguntas com referência à minha experiência e conhecimento. Mas tive alguns momentos de surpresa.

Wow #1

O primeiro deles foi que em uma reunião de 1h40min, em momento nenhum perguntaram se eu possuía formação. Isso vem de encontro ao que defendo sempre que a faculdade é algo importante, mas não tanto na nossa área de tecnologia. E detalhe, a oportunidade era para ser líder de desenvolvimento.

Wow #2

O segundo momento que me surpreendeu foi que normalmente os interessados (recrutadores, gerentes e donos de empresa) conversam com o candidato e se este atende as expectativas, passam um teste para ser feito em um local qualquer da empresa ou mesmo de casa. Mas nesta empresa foi diferente, e foi isso que me deixou maravilhado com a coisa toda.

Estávamos em uma sala de reunião e nela existira um notebook e uma TV de pelo menos umas 70″. Aí o CEO disse: “Certo, Andre. Gostamos do seu perfil, da sua postura e seriedade e quero pedir somente uma coisa, se tiver tempo, é claro. Pega esse notebook, um framework qualquer que você esteja habituado e faz um CRUD pra gente ver”. Ok, um CRUD é simples demais, não fosse o fato de o notebook estar ligado à TV e eu fazendo live coding explicando passo a passo o que fazia. O CEO deixou claro: “Eu sei o que é um CRUD e o que é um framework, mas faça de conta que eu não sei e me ensine tudo o que está fazendo”.

Gostaram do teste e não teve nem espera: “Fechamos com você então. Vamos te enviar um email solicitando os dados de sua empresa para fazermos o contrato”.

Saí de lá com uma felicidade sem tamanho. Não pelo fato de estar com os próximos meses garantidos financeiramente, mas pela forma como a entrevista foi realizada.

Forma de trabalho

Chegando em casa eu decidi reavaliar a situação. Hoje estou com minha empresa de desenvolvimento e, mesmo com as inúmeras dificuldades que toda empresa iniciante possui, até que as coisas estão promissoras e bem encaminhadas.

Avaliei toda a flexibilidade que possuo, todas as reuniões que participo na escolinha do meu filho, todas as consultas de rotina e tratamentos, estou sempre lá. Isso porque se eu fico o dia todo sem trabalhar, viro a noite programando pra deixar tudo em ordem. Aí me veio a pergunta: Estou pronto para perder tudo isso?

A empresa trabalha na área de segurança da informação e possui clientes que não foram mencionados, justamente por questões de segurança. E uma coisa ficou clara: Trabalho remoto sem chance. Flexibilidade, um tanto.

Auto-avaliação

Frente à minha situação (com tamanha flexibilidade atual e questões de saúde do meu pequeno — está tudo bem, são apenas situações de acompanhamento) e a expectativa da empresa para comigo, decidi recusar a proposta. Deixei claro que por a empresa estar com uma expectativa muito alta sobre mim e eu precisar de tamanha flexibilidade, não me via como um líder de desenvolvimento.

Wow #3

Foi então que a empresa me surpreendeu mais uma vez! Um dia depois de recusar o gerente me liga e diz que ficou bastante chateado de eu ter recusado. Com isso me fez uma nova proposta: “Pegamos o valor que solicitou e dividimos por 176h — carga mensal da empresa — e chegamos ao valor X. Quero propor que você venha trabalhar conosco no horário que achar melhor entre 6h e 22h. Terá acesso liberado na empresa e não será o líder de desenvolvimento, mas sim somente programador, com isso você tem carta branca para fazer seus horários. Fizemos isso porque queremos um desenvolvedor com o seu perfil em nosso time. E aí, topa?”.

Rejeitei.

WTF?

Mudaram a forma de trabalho de uma empresa para captar uma pessoa que acreditam ser um talento e eu rejeito. Como assim???

Rejeitei porque alguns projetos que vinha prospectando nos últimos meses se concretizaram e eles demandarão bastante tempo.

Mesmo assim, este episódio realmente me surpreendeu. Durante esta semana passei por 3 processos seletivos. Um deles eu apenas conversei com a recrutadora e nem me sujeitei a fazer o teste, outro fiz o teste, aprendi muito com ele e escrevi sobre este aprendizado aqui e o terceiro foi este que menciono no texto. Mas por mais que o teste do processo seletivo anterior foi algo que muito me encantou, esta empresa definitivamente superou qualquer expectativa.

Seria muito bom se existissem mais empresas como esta, que se sujeita a alterar em partes sua forma de trabalho quando acredita que um profissional vale a pena. Infelizmente este tipo de empresa é a minoria.